Terça-feira, 17 de Abril de 2007

Dia Internacional do Cigano

O dia oito que passou…
 
 
Descendentes de uma das mais antigas sagas migratórias do mundo os Roma vieram da Índia setentrional até aos confins da Ibéria e ao resto do mundo.
 
 
 
Este ano de 2007 é o Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades para Todos. O mês de Abril é por excelência o mês da Liberdade. O dia 8 que passou foi o Dia Internacional do Cigano.
Dia menor nos destaques de imprensa e nas nossas preocupações sociais.
 
Datam do século XI ou XII as primeiras vagas migratórias em direcção à Europa, pelo caminho foram modificando o seu dialecto por via do contacto com o grego, o persa e o arménio. Dividiram-se em vários grupos consoante a zona de origem ou destino: Valáquios, Sinti-Manouche, Romanichel, Calés.
 
Na diáspora as perseguições nunca abrandaram. Caçados por Carlos V (sim, como se fossem coelhos) para deleite da corte Austríaca, escravos na corte Romena, foram “oficialmente” libertados no século XIX.
D. João III, por Lei de 1526, proibiu-os de entraram em Portugal, ordenando a expulsão de todos os que aqui viviam. Só no século XIX o estado português os considerou cidadãos nacionais.
Como notou um sociólogo francês “Os ciganos, sempre em movimento nos seus grupos nómadas, eram considerados fisicamente ameaçadores e ideologicamente subversivos. A sua própria existência suscitava conflito.”
A segunda guerra mundial trouxe novas atrocidades com o regime nazi a enviar para o Holocausto mais de meio milhão de ciganos. No leste europeu havia países com programas de esterilização para famílias ciganas. Já no fim do século passado foi comum haver por toda a Europa pequenos focos de tensão onde pais não-ciganos não deixavam os filhos conviver na escola com crianças ciganas.
 
Em Portugal a etnia cigana ainda com muita influência linguística do hispano-caló é sobretudo estigmatizada por ser diferente. Outros costumes, outro sotaque, outra cor de pele.
Nos anos 80 e 90 do século passado assistimos a presidentes de câmara não autorizarem nos seus conselhos acampamentos ciganos (Ponte de Lima – 1993), populações a não quererem viver nos mesmos bairros com ciganos e a organizarem “milícias populares” (Francelos – 1992), manifestações de extrema-direita contra os ciganos (Coruche – 2002), etc, etc.
Em 1994 um cigano é morto a tiro dentro de uma esquadra da PSP em Matosinhos não tendo este crime sido considerado xenófobo mas apenas um mero acidente.
 
Em 1991 o Centro de Reflexão Cristã de Lisboa identificava a etnia cigana como a mais pobre entre as pobres da periferia da grande Lisboa: 68% das famílias ciganas não tinham água em casa, 45% não tinham electricidade, 60% sem banho e 61% sem retrete. Apenas 20% das famílias dispunham de máquina de lavar, esquentador ou aquecedor.
 
Na imprensa, um estudo feito a um diário portuense em 1987 revelava que apenas 25% das notícias sobre a etnia cigana se referiam à sua cultura ou capacidade de integração. As restantes referiam-se a assaltos, burlas, tiroteios, agressões, assassinatos e tráficos. A criação de estereótipos começa muitas vezes aqui: quando é praticado um crime por parte de um cidadão cigano este é sempre identificado a partir da sua origem étnica o que não acontece com outros cidadãos que são tratados pelo nome.
 
Comerciantes e andarilhos por natureza são facilmente apanhados nas malhas do tráfico de droga. Peões menores de um comércio milionário arcam com as parangonas dos jornais, embora seja evidente que em termos percentuais não há mais traficantes entre os ciganos do que noutras latitudes étnicas. Aliás estamos a assistir à investigação de tráfico de droga por parte de uma comissária, um chefe e um agente da PSP de Lisboa que por acaso não são ciganos…
 
Infelizmente, o lado menos conhecido do povo Romané é precisamente o seu aspecto mais rico. A sua tradição oral de preservar a memória com os seus contos belos e fantásticas, a sua música e dança de que são expoentes Paco de Lucia e Joaquim Cortez.
 
Dos cerca de 30.000 ciganos residentes em Portugal a maioria é gente séria que trabalha nas profissões que geneticamente lhe estão na “massa do sangue”: almocreves no século XVI, comerciantes hoje.
Na zona de Santiago onde há uma comunidade cigana residente, convivem também reformados, jovens e velhos desempregados, operários e pequenos comerciantes. A pobreza e a discriminação não escolhem etnias. A requalificação e recuperação do Bairro terão de ter em conta esta realidade.
 
Felizmente, em Estremoz, não há registos de grandes dificuldades de relacionamento inter-étnico.
Longe vão os tempos em que o Sargento Luz da GNR interpelava em pleno mercado semanal o cigano Silvestre acerca da falta de licença do cão que o seguia para todo o lado.
Atira o Sargento Luz: Ó Silvestre, onde está a licença do canito?
Silvestre: Qual canito meu sargento? Mas eu não conheço o cão!!
Sargento: Mas ele anda sempre atrás de ti!
Silvestre: Ora meu Sargento, também vomecê anda sempre atrás de mim e eu não o conheço de nenhum lado!
 
Tal como a canção de Paco de Lucia: “Solo quiero caminar, como camina el rio hacia la mar…”
 
 
 
Luis Mariano
lmariano@netvisao.pt
 
 
 
publicado por Luis Mariano às 16:50
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1 comentário:
De anonimo a 22 de Fevereiro de 2008 às 17:03
espectaculo Adorei o texto!!! Viva a raça cigana!

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